3 de outubro de 2026

sonho com Julio mais uma vez, com minha avó japonesa e com acrobacias

 Hoje sonhei tanto. Sonhei com voce, Julio, que ia a casa de seu tiorefazia uma escutura pendular de pequenos espelhos e, trançando os fiosde nylon, fazia aparecer espirais,formas ovais, mandalas, olhos de escala monumental. Em cada pequeno espelhelhinho na ponta dos fios eu via seu rosto refletido, voce acima da escada trabalhando agilmente com os dedos a trabalhar os nós e voltas, e eu abaixo, olhando pra cima, via seu rosto tantas vezes, seus olhos verdes brilhantes pulsando nesse mar de reflexos e feixos de luz, nesse universo onde o proprio sol se deixava modelar pelas suas mãos e vontades. 

Eu abaixo hipnotizada via as formas que você colocava no mundo, sem muito me perceber mas percebendo mesmo que baixinho, e eu pensava, profundamente como num sonho interno eu pensava, que os anos não tinham sido capazes de te impedir de fazer magias.

Nesse contexto estavamos recém mudados para essa cidade de seu tio, uma cidade de pessoa burras,eu andava só pelas lanchonetes, comia comidas amarelas. Conheci uma mulher que dizia estar ficando cega e por isso temia perderseu emprego que mais tarde fui descobrir - trabalhava em um karaokê lendo as letras das musicas que passavam na TV de tubo, só lia, nao cantavam os clientes cantavam, mas o trabalho dela era ler, talvez dizer algumas delas, mas no geral, era apenas ler as letras das musicas e estar ali - relato esse, dela, em uma salão de madeira, sobre o qual eu quase ri ao perceber que esse emprego era tão descabido que nao deveria sequer existir, e entao descobria nessa mulher uma solitária estupida, talvez uma pessoa que houvesse perdido a sanidade e para suportar a vida inventou um emprego em segredo, o qual agora tinha medo de perder por estar ficando cega pela segunda vez, sendo a primeira visão a razão.

Sonhe, querido, que nos beijavamos e andavamos de mãos dadas tetando fabula rum futuro que coubess entre as mesas de lanchonetes, as ruas quase vazias, a casa de seu tio, a mulher duplamente cega. Não aprecia possivel ou razoávelviver ali e eu sabia em segredo que voltariamos logo após as festas de final de ano. Mesmo assim, já parecia uma eternidade, ainda mais porque eu não sabia pra onde exatamente eu voltaria. 

Meu amor, eu sonhei que iamos em um shopping, e que dentro desse shopping havia uma área externa com lagos escuros onde eram conduzidos treinos de uma atividade esportiva que consistia em desempenahr manobras aquaticas com toalhas de banho. Fui sozinha pela primeira vez. Entrei no pirmeiro lago, com uma toalha de banho amarela, ela boiava sobre a superficie como uma prancha mas ela macia como uma toalha, e eu deitava sobre ela e parte da tarefa era entender como eu poderia fazer meu corpo ser tão leve a ponto de nao afundar. Havia tambem a manobra de sentar sobre a toalha, sobre uma ponta dela, e usar a outra ponta para traçar infinitos no ar, espalhando água, como fazem as baelais com suas nadadeiras laterais quando querem comunicar algo. Mas na maior parte do tempo as pessoas ficavam boiando sobre as toalhas e contando de seus dias umas para as outras. 

Eu, antes do lago, fui ao ahopping comprar maquiagens e testar esmaltes, mas eu pretendia sair sem pagar por nada. Eu sabia que o gerente sabia que eu pretendia roubar tudo aquilo e me espiava enquanto eu experimentava o blush em pasta, o contorno em pó, a base esmaltada que prometia fazer render a durabilidade e a vibração da cor do esmalte final. 

Nao me lembro se fui capaz de sair com qualquer coisa. Lembro-me que me olhava na cara através do espelho da loja, e que testava o contorno em pó com um pincel enorme, lembro-me que errava a curva da pintura, que esfumava o pó com a palma das mãos, que e que a marca dos meus dedos ficava impressa em meu rosto em um tom sanguineo, como se eu houvesse acabado de levar grandessissimo tapa de mim mesma. Pensava também que nao adiatava a qualidade da maquiagem que eu aplicasse, minha pele nao deixaria de ser feia como é, e que só a tentativa de esconder seus buracos e protuberancias já que enfeiava mais do que não fazer absolutamente nada. 

Sonhei tambem com minha avó, que era japonesa mas nao deixava por isso de ser minha avó, e ela era forte e estava evelhececendo muito bem. Meu pai tambem aparecia e eu tinha medo de que aquela fosse a ultima vez que eu o visse. Eu cometia alguma infração contra um grupo de homens direitistas, acho que tentava envenená-los, e entao a milicia ficava atrás de nós. Eu temia que matassem meu cachorro.Meu cachorro era grande marrom e peludo e estava velho porém vivo. 

Numa video chamada euvia o parto da irmã da Ciça, minha amiga de infancia.Era lindo e eu me sentia feliz por termos mais uma criança no mundo, tão pequena e poderosa, carregando o futuro nas maozinhas contraídas rosadas. Uma cabeleira marrom escuro e quase nao chorava. A Ana, mão do menino ou menina que acabavamos de ver nascer pela tela do Ipad, assim recém parida, já começava a dar seus saltos mortais e estrelas, e as duas, Ana e Ciça, festejavam a vida dançando essa dança acrobatica, já vestidas de ginastas. Era encantador. 


4 de agosto de 2026

ode ao rio de janeiro

 Meu amigo, como posso dizer com mais precisão do que posso, que cada dia mais odeio tudo o que vejo?

Fico buscando buracos nas feiúras, pequenos detalhes de deus, mas há dias que nem isso. 

A cidade do Rio de Janeiro é uma mentira que contaram a todos há muitos anos e até hoje a gente vive nessa virtualidade da beleza. Não há beleza aqui, eu prometo. Nem as montanhas, nem as águas, nem as florestas. Tudo está corrompido. Não há uma borboleta que não tenha culpa da grande avalanche de merda que criamos.

Detesto a cor cinza das ruas e o sol que sempre estoura sua luz banal nas janelas de alumínio rua abaixo. E  o cheiro de excrementos humanos sobe à medida que o calor aumenta e, sejamos honestos, não há como viver numa banheira de merda e não ser também igualmente merda. Por isso tenho certeza, mesmo que eu saia dessa cidade, essa cidade nao vai sair de mim. Merda sai de mim todos os dias e ainda assim, todos os dias sai merda de mim. 

Rememoro as paisagens que mais odeio: a estação de metro do maracanã, os arcos da lapa, a rua Augusto Severo, a praça da Cinelandia à noite. Todas as obras. Todas as motos. Todos os sons. Copacabana ao entardecer, entre um Bobs e uma farmácia. A minha propria casa a essa hora, invadida pelo samba e pela estupidez da alegria carioca e da cuíca. 

Há uns anos havia o corpo de um menino enrolado nos fios de alta tensao em santa teresa. Alguém passou e achou que seria engraçado descer o short de tactel do menino até seus joelhos para que sua bunda ficasse à mostra. Uma poesia urbana do fim do mundo. Um atestado de imbecilidade de uma cidade. Em ultima instancia acredito que a crueldade é uma das expressões da imbecilidade. Por isso não há outro jeito senão exterminar os burros de espirito com uma metralhadora de desgosto, indiferença e nojo. 

O corpo desse menino ficou lá morto e pendurado. Uma amiga o chamou de equilibrista. O maior de todos, pois mesmo morto não cai. Depois tiraram o morto de lá. Deveria ter ficado. Uma leve lembrança da verdade sobre o que chamamos de casa. 

Tem gente que acredita em uma luta contra a imbecilidade carioca. Já eu, acho que quanto mais se luta mais se perde. A imbecilidade é um zero que multiplica. 

Será que há uma ação pedagógica que nos exima a todos dos zeros multiplicadores? Será a imbecilidade uma especie de demonio que pode ser exorcizado? 

Eu acho que eu acredito mais em religião do que em politica. Não há palavra que comunique, só a vibração de um monstro marinho salvaria o Rio de Janeiro. Só as presas das sereias comendo as vísceras dos banhistas, de todas as cores, sexos e idades, nomeando todas as praias de Praias Vermelhas. Só uma maldição de Omolu, que do dia pra noite faça a cidade acordar cheia de chagas e moscas varejeiras com seus vermes que comem a carne do Leme ao Pontal, começando pela orla-epidérmica, exterminando primeiro a bossa nova, pra depois ir se alastrando pelos rios urbanos fétidos, contaminando até os mais inocentes e desprotegidos. 

Só há espaço para o extermínio de todas as gerações. 

Sonho com o momento em que nao estaremos mais aqui. Nem eu, nem você, nem ninguém. O momento que não exista mais propaganda de supermercados com seus fundos infinitos e fontes ridículas e narradores ridículos. Um momento quando não haverá mais imbecilidade pois não haverá mais ser humano que possa incorporá-la. Esse receptáculo da vergonha universal - nós - explodidos, sendo digeridos por minhocas e formigas e silêncio, finalmente silêncio, depois de tudo isso, que não valeu de nada. 


 



14 de abril de 2026

fim

 Toda vez que venho aqui parece a última

e eu me ressinto de nao aproveitar ao máximo 

de nao desaparecer na paisagem e deixar a paisagem crescer dentro de mim 

me ressinto de nao ser o lugar inteiro, eu e o lugar

Cada brilho de sol na folhas folhas

casa nova espécie que aparece

cada cogumelo que encontro

é o ultimo


Então dá medo de seguir em frente

porque o agora é sempre o fim



23 de março de 2026

o nível do mar

 antes, perdemos o vermelho, sao as primeiras ondas de cor que desaparece enquanto vamos afundando para debaixo no nível da agia do mar. 

com a profundidade, outras frequências desaparecem. como o azul, o amarelo, o verde. Em algum momento tudo fica cinza e depois preto. 

Meus ouvidos nunca suportaram a pressão de decair gradualmente do nível do mar. Aos 5m de profundidade já começa a doer muito. Acho que eu já vivo nos 20 negativos. 

uma das qualidades da baleia é ter a plasticidade do corpo pronta para que sua caixa toraxica diminua muitos litros cúbicos, ao expanda. Os pulmões de tamanhos variáveis, de acordo com a pressão do ambiente. 

O poder de quase não existir, se assim gasta-se menos energia e se está em consonância com a vibração do oceano. Esse é o segredo da baleia. 

lugares e paisagens

 Eu amo ler esse blog pra lembrar que eu pensava em lugares e paisagens desde muito antes de agora.


7 de novembro de 2025

Sonho com cobra

 (Mês passado fui à Manaus, e vi algumas cobras. Uma delas estava sendo segurada por um homem, em uma aldeia indigena que fui visitar, e era maior que o corpo dele. Era grossa e forte estava enrolada no tronco do homem. Eu nao cheguei perto pra nao abrir precedentes para uma abordagem do tipo tire uma foto, pague 50 reais. 

No outro dia fui ao MUSA - Museu da Amazônia. Lá tinham alguns casebres dedicados a tipos de animais, que estavam sendo expostos em viveiros e terrários. Cobras e serpentes - algumas pequenas outras maiores, algumas verdes outras escuras, outras amarelas, mas sempre camufladas. Era dificil encontrar com os olhos o bicho dentro do terrario, e quando eu o encontrava era sempre um susto pois era tão obvio.) 

Ontem sonhei com uma cobra amarela, enorme. Eu estava em algum lugar bonito na natureza e me afastava pra explorar a região. Encontrava um lugar com uma trama bem elaborada de cipós, que faziam um telhado leve, que se mexia junto com as arvores. Tinha tambem um balanço feito de cipo. O chao era de pedra, amarelado. Eu achava o lugar tão bonito que eu resolvia deitar no chao, pra ver o telhado de cipó se movendo prum lado e pro outro.  Ficava esticada la no chao me espreguiçando e gozando da vista aérea. De súbito, não sei porque, decido me sentar no balanço, e pegar o celular, pra fazer uma filmagem do movimento dos cipós. Suspendo um pouco o balanco e quando aponto a camera pra o chão, vejo que há uma cobra imensa, amarela, bem perto de mim. Eu deveria estar quase a tocá-la quando estava me espreguiçando no chão. Ela já estava armada, enroscada em si, com a cabeça levantada e a língua investigando o ar. Agora eu estava na suspensao do balanço, e quando ele voltasse, pra fazer seu contra-movimento, eu passaria com as pernas bem perto da boca da cobra e provavelmente ela me picaria. 

Encolhi as pernas e não me lembro mais o que houve. 

Acordei com a sensação estranha de ter deitado ao lado de uma cobra em estado de bote, sem ter percebido.... e só ter podido ver sua figura através da lente da câmera do celular. 

Meu historico psicanalítico me faz querer interpretar esse sonho como a relaçao com meu ex namorado, Gabriel, relação pela qual processo um luto estranho e diferente das outras.

Gabriel sempre foi um cara amável comigo mas tambem nunca foi muito bom em manter conexão à distancia, por mensagens ou ligações. Com o tempo, e com a constante agenda de viagens, mais minhas do que dele, esse problema acabou ficando grande. Conversamos algumas vezes a respeito do assunto, e de como eu me sinto triste e profundamente perdida quando ele não me escreve por muitas horas, quando sinto que ele nao está em conexão comigo. Tentei durante alguns meses não trazer a questão, porque tenho vergonha dela. Tenho vergonha de ser essa pessoa que precisa sempre de um pouco mais de atenção, e que gosta de ligações no meio do dia, e que precisa se sentir vista sempre. eu sei que isso é uma ferida antiga, infantil, e que cabe a mim lidar com isso, sem responsabilizar meus parceiros pela manutenção da minha sanidade. Mas eu nao consigo nao sentir isso que eu sinto. Esse derretimento, essa ausencia de mim, esse desejo de morrer, me afundar em nada, toda vez que me sinto rejeitada. 

Negocio muito comigo mesma pra relativizar a sensação do abandono. Primeiro, entender que em todas as relações, há abandonos e desconexões, e que eu nao vou morrer, e que a pessoa não é um mostro porque "falhou", do meu ponto de vista emocionalmente  machucado. 

Depois que, sim, é verdade que eu sinto isso, e não é fingindo que eu nao sinto que eu vou deixar de sentir. Acolher de verdade o que eu sinto sem culpar o outro por isso. Depois, entender se a relação com esse outro está sendo possível pra mim, agora. Se a maneira de ser da outra pessoa me desperta angustia demais - então assim não é possível. Se eu comunico meus limites com meu companheiro, ele se esforça pra atende-los, ele falha, eu sustento as falhas porque vejo seu esforço e isso me acalenta e nos faz crescer, ótimo, é isso que eu quero. Mas o Gabriel, apesar de ter tentado algumas vezes atender às minhas demandas, no dia que meu pai foi internado (2017 se repete) ele nao me ligou ou mandou qualquer mensagem até as tres e meia da tarde. E isso dilacerou meu coração a tal ponto que eu vi ali uma coisa intransponível. Gabriel não tinha qualquer urgência em saber de mim, na situação difícil que eu estava. E eu, que ja me esforço pra sustentar as pequenas negligencias das relações, não me senti interessada em me colocar no lugar de tentar seguir sustentando a falta de urgência de cuidar do Gabriel sobre mim. 

Aí parece que tudo se repete... que eu falho novamente, que eu não sou boa o suficiente pra que alguém tenha urgencia em cuidar de mim. Me sinto um fracasso. Ao mesmo tempo, de alguma forma, eu consegui sustentar o fracasso que eu sou. Eu sou esse fracasso aqui. Sou assim - carente, insegura, cheia de gatilhos, e posso ser muito chata. 

15 de fevereiro de 2025

Exercico de auto imposição de escrita dia 1

 Rio de Janeiro, sensação térmica 60graus. Sonhei com você essa noite, sentia uma dor imensa  na garganta, como se ela fosse explodir por eu não conseguir o que eu queria de você. Havia algo, mas não era o suficiente. Eu sou uma criança exigente.

Meu corpo está infestado pelo fungo cândida. Hoje acordei com ele escorrendo da minha vagina. Tomei antibióticos semana passada porque removi um cisto da testa. O fungo se beneficiou do desequilíbrio da minha flora, prosperou. Agora não sei se deixo meu corpo lutar por sua regulação ou intervenho com pastas em tubos e comprimidos coloridos. 

O mestrado está em suspensão sobre minha cabeça. Fiz listas de tarefas e não cumpri nenhuma. Fico muitas horas de tela em tela, não sei ao certo fazendo o quê. Me pergunto se minha geração perdeu de vez a vida para as máquinas. Penso em Guy Debord e sempre na bala que enfiou em sua própria cabeça. De repente talvez o espetáculo ficou grande demais, e o corpo real demais, e esse gap entre um mundo e outro se chamava abismo. 

Outra noite sonhei que estava gravida. Ontem vi um menino dormindo de costas, da janela da minha casa, uma criança, uns 6 anos. Tive vontade de ser mãe de uma criança de 6 anos. 

Os domingos quentes me lembram você, e olha que hoje ainda é sábado. Eu poderia escrever isso todos os dias da semana. Tentei transformar em arte mas não consegui. 

Há em nós um eu que narra?