Meu amigo, como posso dizer com mais precisão do que posso, que cada dia mais odeio tudo o que vejo?
Fico buscando buracos nas feiúras, pequenos detalhes de deus, mas há dias que nem isso.
A cidade do Rio de Janeiro é uma mentira que contaram a todos há muitos anos e até hoje a gente vive nessa virtualidade da beleza. Não há beleza aqui, eu prometo. Nem as montanhas, nem as águas, nem as florestas. Tudo está corrompido. Não há uma borboleta que não tenha culpa da grande avalanche de merda que criamos.
Detesto a cor cinza das ruas e o sol que sempre estoura sua luz banal nas janelas de alumínio rua abaixo. E o cheiro de excrementos humanos sobe à medida que o calor aumenta e, sejamos honestos, não há como viver numa banheira de merda e não ser também igualmente merda. Por isso tenho certeza, mesmo que eu saia dessa cidade, essa cidade nao vai sair de mim. Merda sai de mim todos os dias e ainda assim, todos os dias sai merda de mim.
Rememoro as paisagens que mais odeio: a estação de metro do maracanã, os arcos da lapa, a rua Augusto Severo, a praça da Cinelandia à noite. Todas as obras. Todas as motos. Todos os sons. Copacabana ao entardecer, entre um Bobs e uma farmácia. A minha propria casa a essa hora, invadida pelo samba e pela estupidez da alegria carioca e da cuíca.
Há uns anos havia o corpo de um menino enrolado nos fios de alta tensao em santa teresa. Alguém passou e achou que seria engraçado descer o short de tactel do menino até seus joelhos para que sua bunda ficasse à mostra. Uma poesia urbana do fim do mundo. Um atestado de imbecilidade de uma cidade. Em ultima instancia acredito que a crueldade é uma das expressões da imbecilidade. Por isso não há outro jeito senão exterminar os burros de espirito com uma metralhadora de desgosto, indiferença e nojo.
O corpo desse menino ficou lá morto e pendurado. Uma amiga o chamou de equilibrista. O maior de todos, pois mesmo morto não cai. Depois tiraram o morto de lá. Deveria ter ficado. Uma leve lembrança da verdade sobre o que chamamos de casa.
Tem gente que acredita em uma luta contra a imbecilidade carioca. Já eu, acho que quanto mais se luta mais se perde. A imbecilidade é um zero que multiplica.
Será que há uma ação pedagógica que nos exima a todos dos zeros multiplicadores? Será a imbecilidade uma especie de demonio que pode ser exorcizado?
Eu acho que eu acredito mais em religião do que em politica. Não há palavra que comunique, só a vibração de um monstro marinho salvaria o Rio de Janeiro. Só as presas das sereias comendo as vísceras dos banhistas, de todas as cores, sexos e idades, nomeando todas as praias de Praias Vermelhas. Só uma maldição de Omolu, que do dia pra noite faça a cidade acordar cheia de chagas e moscas varejeiras com seus vermes que comem a carne do Leme ao Pontal, começando pela orla-epidérmica, exterminando primeiro a bossa nova, pra depois ir se alastrando pelos rios urbanos fétidos, contaminando até os mais inocentes e desprotegidos.
Só há espaço para o extermínio de todas as gerações.
Sonho com o momento em que nao estaremos mais aqui. Nem eu, nem você, nem ninguém. O momento que não exista mais propaganda de supermercados com seus fundos infinitos e fontes ridículas e narradores ridículos. Um momento quando não haverá mais imbecilidade pois não haverá mais ser humano que possa incorporá-la. Esse receptáculo da vergonha universal - nós - explodidos, sendo digeridos por minhocas e formigas e silêncio, finalmente silêncio, depois de tudo isso, que não valeu de nada.