4 de agosto de 2026

ode ao rio de janeiro

 Meu amigo, como posso dizer com mais precisão do que posso, que cada dia mais odeio tudo o que vejo?

Fico buscando buracos nas feiúras, pequenos detalhes de deus, mas há dias que nem isso. 

A cidade do Rio de Janeiro é uma mentira que contaram a todos há muitos anos e até hoje a gente vive nessa virtualidade da beleza. Não há beleza aqui, eu prometo. Nem as montanhas, nem as águas, nem as florestas. Tudo está corrompido. Não há uma borboleta que não tenha culpa da grande avalanche de merda que criamos.

Detesto a cor cinza das ruas e o sol que sempre estoura sua luz banal nas janelas de alumínio rua abaixo. E  o cheiro de excrementos humanos sobe à medida que o calor aumenta e, sejamos honestos, não há como viver numa banheira de merda e não ser também igualmente merda. Por isso tenho certeza, mesmo que eu saia dessa cidade, essa cidade nao vai sair de mim. Merda sai de mim todos os dias e ainda assim, todos os dias sai merda de mim. 

Rememoro as paisagens que mais odeio: a estação de metro do maracanã, os arcos da lapa, a rua Augusto Severo, a praça da Cinelandia à noite. Todas as obras. Todas as motos. Todos os sons. Copacabana ao entardecer, entre um Bobs e uma farmácia. A minha propria casa a essa hora, invadida pelo samba e pela estupidez da alegria carioca e da cuíca. 

Há uns anos havia o corpo de um menino enrolado nos fios de alta tensao em santa teresa. Alguém passou e achou que seria engraçado descer o short de tactel do menino até seus joelhos para que sua bunda ficasse à mostra. Uma poesia urbana do fim do mundo. Um atestado de imbecilidade de uma cidade. Em ultima instancia acredito que a crueldade é uma das expressões da imbecilidade. Por isso não há outro jeito senão exterminar os burros de espirito com uma metralhadora de desgosto, indiferença e nojo. 

O corpo desse menino ficou lá morto e pendurado. Uma amiga o chamou de equilibrista. O maior de todos, pois mesmo morto não cai. Depois tiraram o morto de lá. Deveria ter ficado. Uma leve lembrança da verdade sobre o que chamamos de casa. 

Tem gente que acredita em uma luta contra a imbecilidade carioca. Já eu, acho que quanto mais se luta mais se perde. A imbecilidade é um zero que multiplica. 

Será que há uma ação pedagógica que nos exima a todos dos zeros multiplicadores? Será a imbecilidade uma especie de demonio que pode ser exorcizado? 

Eu acho que eu acredito mais em religião do que em politica. Não há palavra que comunique, só a vibração de um monstro marinho salvaria o Rio de Janeiro. Só as presas das sereias comendo as vísceras dos banhistas, de todas as cores, sexos e idades, nomeando todas as praias de Praias Vermelhas. Só uma maldição de Omolu, que do dia pra noite faça a cidade acordar cheia de chagas e moscas varejeiras com seus vermes que comem a carne do Leme ao Pontal, começando pela orla-epidérmica, exterminando primeiro a bossa nova, pra depois ir se alastrando pelos rios urbanos fétidos, contaminando até os mais inocentes e desprotegidos. 

Só há espaço para o extermínio de todas as gerações. 

Sonho com o momento em que nao estaremos mais aqui. Nem eu, nem você, nem ninguém. O momento que não exista mais propaganda de supermercados com seus fundos infinitos e fontes ridículas e narradores ridículos. Um momento quando não haverá mais imbecilidade pois não haverá mais ser humano que possa incorporá-la. Esse receptáculo da vergonha universal - nós - explodidos, sendo digeridos por minhocas e formigas e silêncio, finalmente silêncio, depois de tudo isso, que não valeu de nada. 


 



14 de abril de 2026

fim

 Toda vez que venho aqui parece a última

e eu me ressinto de nao aproveitar ao máximo 

de nao desaparecer na paisagem e deixar a paisagem crescer dentro de mim 

me ressinto de nao ser o lugar inteiro, eu e o lugar

Cada brilho de sol na folhas folhas

casa nova espécie que aparece

cada cogumelo que encontro

é o ultimo


Então dá medo de seguir em frente

porque o agora é sempre o fim



23 de março de 2026

o nível do mar

 antes, perdemos o vermelho, sao as primeiras ondas de cor que desaparece enquanto vamos afundando para debaixo no nível da agia do mar. 

com a profundidade, outras frequências desaparecem. como o azul, o amarelo, o verde. Em algum momento tudo fica cinza e depois preto. 

Meus ouvidos nunca suportaram a pressão de decair gradualmente do nível do mar. Aos 5m de profundidade já começa a doer muito. Acho que eu já vivo nos 20 negativos. 

uma das qualidades da baleia é ter a plasticidade do corpo pronta para que sua caixa toraxica diminua muitos litros cúbicos, ao expanda. Os pulmões de tamanhos variáveis, de acordo com a pressão do ambiente. 

O poder de quase não existir, se assim gasta-se menos energia e se está em consonância com a vibração do oceano. Esse é o segredo da baleia. 

lugares e paisagens

 Eu amo ler esse blog pra lembrar que eu pensava em lugares e paisagens desde muito antes de agora.


7 de novembro de 2025

Sonho com cobra

 (Mês passado fui à Manaus, e vi algumas cobras. Uma delas estava sendo segurada por um homem, em uma aldeia indigena que fui visitar, e era maior que o corpo dele. Era grossa e forte estava enrolada no tronco do homem. Eu nao cheguei perto pra nao abrir precedentes para uma abordagem do tipo tire uma foto, pague 50 reais. 

No outro dia fui ao MUSA - Museu da Amazônia. Lá tinham alguns casebres dedicados a tipos de animais, que estavam sendo expostos em viveiros e terrários. Cobras e serpentes - algumas pequenas outras maiores, algumas verdes outras escuras, outras amarelas, mas sempre camufladas. Era dificil encontrar com os olhos o bicho dentro do terrario, e quando eu o encontrava era sempre um susto pois era tão obvio.) 

Ontem sonhei com uma cobra amarela, enorme. Eu estava em algum lugar bonito na natureza e me afastava pra explorar a região. Encontrava um lugar com uma trama bem elaborada de cipós, que faziam um telhado leve, que se mexia junto com as arvores. Tinha tambem um balanço feito de cipo. O chao era de pedra, amarelado. Eu achava o lugar tão bonito que eu resolvia deitar no chao, pra ver o telhado de cipó se movendo prum lado e pro outro.  Ficava esticada la no chao me espreguiçando e gozando da vista aérea. De súbito, não sei porque, decido me sentar no balanço, e pegar o celular, pra fazer uma filmagem do movimento dos cipós. Suspendo um pouco o balanco e quando aponto a camera pra o chão, vejo que há uma cobra imensa, amarela, bem perto de mim. Eu deveria estar quase a tocá-la quando estava me espreguiçando no chão. Ela já estava armada, enroscada em si, com a cabeça levantada e a língua investigando o ar. Agora eu estava na suspensao do balanço, e quando ele voltasse, pra fazer seu contra-movimento, eu passaria com as pernas bem perto da boca da cobra e provavelmente ela me picaria. 

Encolhi as pernas e não me lembro mais o que houve. 

Acordei com a sensação estranha de ter deitado ao lado de uma cobra em estado de bote, sem ter percebido.... e só ter podido ver sua figura através da lente da câmera do celular. 

Meu historico psicanalítico me faz querer interpretar esse sonho como a relaçao com meu ex namorado, Gabriel, relação pela qual processo um luto estranho e diferente das outras.

Gabriel sempre foi um cara amável comigo mas tambem nunca foi muito bom em manter conexão à distancia, por mensagens ou ligações. Com o tempo, e com a constante agenda de viagens, mais minhas do que dele, esse problema acabou ficando grande. Conversamos algumas vezes a respeito do assunto, e de como eu me sinto triste e profundamente perdida quando ele não me escreve por muitas horas, quando sinto que ele nao está em conexão comigo. Tentei durante alguns meses não trazer a questão, porque tenho vergonha dela. Tenho vergonha de ser essa pessoa que precisa sempre de um pouco mais de atenção, e que gosta de ligações no meio do dia, e que precisa se sentir vista sempre. eu sei que isso é uma ferida antiga, infantil, e que cabe a mim lidar com isso, sem responsabilizar meus parceiros pela manutenção da minha sanidade. Mas eu nao consigo nao sentir isso que eu sinto. Esse derretimento, essa ausencia de mim, esse desejo de morrer, me afundar em nada, toda vez que me sinto rejeitada. 

Negocio muito comigo mesma pra relativizar a sensação do abandono. Primeiro, entender que em todas as relações, há abandonos e desconexões, e que eu nao vou morrer, e que a pessoa não é um mostro porque "falhou", do meu ponto de vista emocionalmente  machucado. 

Depois que, sim, é verdade que eu sinto isso, e não é fingindo que eu nao sinto que eu vou deixar de sentir. Acolher de verdade o que eu sinto sem culpar o outro por isso. Depois, entender se a relação com esse outro está sendo possível pra mim, agora. Se a maneira de ser da outra pessoa me desperta angustia demais - então assim não é possível. Se eu comunico meus limites com meu companheiro, ele se esforça pra atende-los, ele falha, eu sustento as falhas porque vejo seu esforço e isso me acalenta e nos faz crescer, ótimo, é isso que eu quero. Mas o Gabriel, apesar de ter tentado algumas vezes atender às minhas demandas, no dia que meu pai foi internado (2017 se repete) ele nao me ligou ou mandou qualquer mensagem até as tres e meia da tarde. E isso dilacerou meu coração a tal ponto que eu vi ali uma coisa intransponível. Gabriel não tinha qualquer urgência em saber de mim, na situação difícil que eu estava. E eu, que ja me esforço pra sustentar as pequenas negligencias das relações, não me senti interessada em me colocar no lugar de tentar seguir sustentando a falta de urgência de cuidar do Gabriel sobre mim. 

Aí parece que tudo se repete... que eu falho novamente, que eu não sou boa o suficiente pra que alguém tenha urgencia em cuidar de mim. Me sinto um fracasso. Ao mesmo tempo, de alguma forma, eu consegui sustentar o fracasso que eu sou. Eu sou esse fracasso aqui. Sou assim - carente, insegura, cheia de gatilhos, e posso ser muito chata. 

15 de fevereiro de 2025

Exercico de auto imposição de escrita dia 1

 Rio de Janeiro, sensação térmica 60graus. Sonhei com você essa noite, sentia uma dor imensa  na garganta, como se ela fosse explodir por eu não conseguir o que eu queria de você. Havia algo, mas não era o suficiente. Eu sou uma criança exigente.

Meu corpo está infestado pelo fungo cândida. Hoje acordei com ele escorrendo da minha vagina. Tomei antibióticos semana passada porque removi um cisto da testa. O fungo se beneficiou do desequilíbrio da minha flora, prosperou. Agora não sei se deixo meu corpo lutar por sua regulação ou intervenho com pastas em tubos e comprimidos coloridos. 

O mestrado está em suspensão sobre minha cabeça. Fiz listas de tarefas e não cumpri nenhuma. Fico muitas horas de tela em tela, não sei ao certo fazendo o quê. Me pergunto se minha geração perdeu de vez a vida para as máquinas. Penso em Guy Debord e sempre na bala que enfiou em sua própria cabeça. De repente talvez o espetáculo ficou grande demais, e o corpo real demais, e esse gap entre um mundo e outro se chamava abismo. 

Outra noite sonhei que estava gravida. Ontem vi um menino dormindo de costas, da janela da minha casa, uma criança, uns 6 anos. Tive vontade de ser mãe de uma criança de 6 anos. 

Os domingos quentes me lembram você, e olha que hoje ainda é sábado. Eu poderia escrever isso todos os dias da semana. Tentei transformar em arte mas não consegui. 

Há em nós um eu que narra? 



4 de dezembro de 2024

Dávida de Tara Branca - pratica de hoje

 Fecharam-se pétalas de lírio branco sobre mim, como uma cabana

Sob elas me deitei de lado no chão abraçando meus joelhos 

A suavidade se impôs a mim

Quando fechei os olhos pude vê-la em sua eterna benevolência 

De pele branca cor de papel, e gélida, e suave como as pétala que nos cobriam. Uma pele feita da mesma matéria das flores. Braços longos e dedos finos me abraçaram e adentraram meus cabelos. Um colo imenso me teve, perfumada e segura. Pra sempre, eu sabia. 

Chama-la mãe seria diminuir sua força, agora sinto ao buscar descrevê-la. Era ela na verdade a rainha da benevolência eterna, a consciência da alegria da vida por si mesma. 

Te peço que me ensine, Rainha, a me amar como você me ama. Ficarei eternamente deitada em seus braços e colo gelados como um rio que está sempre a correr, e que me envolve corpo mente e espirito na certeza de seu amor. 

Que tudo falhe, se dissolva, se estilhasse no chão como um cristal denso - estarei junto de ti para gargalhar disso e observar o prisma em cores se espalhar pelo espaço e invadir nossos corações. 

Num mar de abundancia de amor, onda após onda, mergulhamos. Do outro lado saímos com os olhos cheios da profundeza misteriosa e radicalmente benévola da vida. 

Te saúdo e te venero, Grande Rainha Branca. Me cubra sempre com suas pétalas e me dê seu colo, sem que precise buscar. Vamos juntas nessa brincadeira. Pensarei em você todos os dias e deitarei lírios brancos nas beiras dos rios, pra te presentear. 


14 de novembro de 2024

o caminho do olho

 

Há uma que me espreita quieta no canto do corredor

quer responder por mim, me fazer refém, mijar na minha cama, gritar com as pessoas e depois me jogar da janela. É uma criança terrorista, armada, contra a parede, mirando um corredor escuro, vestindo uma camisola do Snoopy.

No dentro dela

há uma fenda 

pra dentro 

tão vertical 

que a suga pra baixo

e que a arremessa 

pra fora 

tão radicalmente 

que nesse paradoxo 

se embrulha em si mesma 

e gira no espaço

 sem voar 

 sem pousar

 caindo 

pra sempre 

no mesmo lugar

 presa num frame dos anos 80

 

Eu me aproximo, ela corre

Ela cai

Ela chora

Seu peito se derrama no tapete

lambança de vergonha

memórias bordô

memórias de ninguém. 

Pouco há onde estar pois dentro dela é só abismo e tudo fora é sempre como tudo dentro

sem tirar nem pôr


Eu não encontro pessoas

Eu caio dentro das pessoas

Eu busco espaço no olhar das pessoas

Onde quase nunca há

É por isso que eu faço teatro

Porque pelo menos ali

as pessoas vão para olhar

e elas ficam de olhos abertos o tempo todo


Segredo, te conto

o caminho do olho é o caminho do tato 













31 de outubro de 2024

Diagrama interno

Eu olho para as coisas com meus olhos 
Os olhos das coisas olham pra mim 
eu tenho agonia dessa troca de olhares 

Faz tempo que busco lugares úmidos e encontro lugares áridos 
Minha alma tem afinidade com a água, o musgo e a lesma 
Vem-me sempre pessoas com pratos rasos e secos 
Lambo-os em busca d'água 
Minha saliva os hidrata 
Depois o sol os seca e eles vão embora 
Minha língua guarda a memória do atrito 
Tenho sede mas já não ligo 

Nessas casas que tenho morado há sempre um pó escuro pelo chão 
Foligem das ruas 
pele de gente que anda sob o sol 
uma lesma sob o sal já viram?
 água escorrendo pro ralo 
de um piso frio na varanda de alguém 
na região dos lagos 

Há um diagrama interno 
Poeira se junta ao sol e ao calor Se junta ao barulhos, apitos, motocicletas Se junta ao enjoo, ao susto, ao cansaço 
Se junta ao deserto, à solidão, ao caminho escasso 

Riacho se junta ao salgueiro, que se junta à pedra, ao musgo, a lesma, a noite, a lua, a vagina, ao sonho, às cores, à alegria, ao mistério, aos vagalumes, a escrita, a arte, a beleza, a minha beleza, a minha lesma, a minha vagina, a minha pele, a minha vida fresca, a selvagem vontade de multiplicar-me, à excitação pelo úmido secreto da vida 

são opostos os lados do diagrama 
Vivo no lado que nao gosto em busca do seu oposto 

Enquantao não acho, me confundo com qualquer coisa 
A confusão ficou grande demais, preciso ir na essencialidade para livrar-me dela 

Menos tempo de tela 
Menos tempo de fora 
Menos tempo 
Mais espaço 
Mais espaço do lado de dentro 
Mais dentro na paisagem do espaço 
Mais umidade para o caminhos dos pés 
Mais pés para molharem-se no riacho 
Mais riacho para as pedras 
Mais pedras para contarem-me segredos 
Mais segredos para contarem-me caminhos 
Escrevo, escrevo, e nunca passo

27 de outubro de 2024

uma só

O que mais me dá dó é que a vida é uma só, e eu ainda estou de pijamas

velho amigo

Novamente aqui, olá. Uma carta ao mar, nesses momentos nos quais eu busco encontrar deus dentro de mim e acabo escrevendo sobre meu intestino. Uma anatomia da melancolia. Enfim, eu so precisava escrever nesse diario. As redes sociais nos ensinaram a só produzir coisas que podemos mostrar aos outros e hoje lembrei de voce, ANFIGURI, esse lugarzinho esquecido do mundo. Tem 16 anos que te frequento. Nossa relacao é mais velha que muitas amizades humanas. Voce, de alguma forma, é meu amigo. Me vejo em todos esses anos construindo a mesma paisagem, mesmas palavras, eu era tao assim como sou desde que nasci... e isso me reafirma que nao posso fugir de mim, apesar de tudo. As vezes eu quero muito sabe. Ser outra. Ter outras cores na minha paleta. Mas sei la, fazer o que. eu sou isso aí, Anfiguri. Eu sou essa alma do meu tempo.

6 de junho de 2020

teatro de geladeira


ATÉ A GELADERIA
Muitas vezes, lendo ou ouvindo ideias interessantes, me acomete uma grande vontade de alinhavar pensamentos. A maioria dessas vezes eu simplesmente não tenho achado terreno para isso. Tenho bastante ansiedade ultimamente, que é basicamente como ter dor de cabeça ou gastrite ou ressaca, na minha geração. Todo mundo sofre de ansiedade como antigamente, na época dos meus avos, todos deveriam sofrer de dor de dentes.
A ansiedade é imediatamente transformada em imobilidade física cujo único membro do meu corpo que dela não participa é o dedo, que desliza o feed de todas as redes sociais na tela do meu smartphone. É obvio dizer que passo tempo demais olhando de tudo um pouco, tenho desejos e insights que me abandonam assim que eu passo à próxima imagem. É um constante abrir a geladeira sem saber o que está procurando. E sem fome.
Quando me dou conta estou na frente da geladeira, porta aberta, e tudo pra trás e pra frente é um filme desfocado. O que eu vim fazer aqui? O que eu procuro? Para onde vou? E todas as perguntas existenciais que couberem nesse tempo constrangedor que me percebo vazia na frente de uma geladeira cheia.
Para sentar agora e tentar alinhavar pensamentos eu tomei 5 gostas de Clonazepan. Faço isso recorrentemente, além do prozac cotidiano. Essas drogas de sedar estados extremos de desconforto são como um fast food da experiência espiritual do aqui-agora. É bem mais fácil com elas, um parque de diversões no corpo, mas eu sei que há funções do meu organismos que elas colocam pra dormir e que talvez só acordem daqui há alguns anos. Hibernações confortáveis.  Uma pergunta com um martelo: o que me sobra se eu não me entorpeço? O que eu faço com o desconforto? O que ele faz comigo? Pra onde vamos, eu e ele de mãos dadas, se eu desse a chance dele vir e ficar um pouco mais de tempo?
Não sei. A angustia me convida a me retirar de mim apontando a porta do aposento e, com toda a elegância, eu saio.
A questão é – estamos em casa, em isolamento social. Não trabalho, não recebo, não gasto tanto e o tenho comida. White people problems, obviamente. Enquanto isso no Salgueiro eu já perdi a conta dos tiros disparados só essa manhã.
Eu pensava que algo fosse acontecer, que fosse me acordar para novos mundos, me dar energia para construir outro platô possível pras sobrevivências que eu amo, como espécies animais habitantes de muitas dimensões. O teatro, esse cachorro simpático,  lugar cada vez mais raro de meu acesso e ainda assim tão vivo em mim, todos os dias. Todos os dias há alguém que sobre um palco (que é a vida presente), age.
Sei que hoje alguém acordou, cambaleou pela casa até a cozinha,  os pés ainda dormindo, estranhando a dureza do chão, unhas da maneira como a natureza as fez. Abriu a geladeira. E entrou em um teatro vazio. Sem roteiro. Estava ali para ensaiar algo. Corpo, espaço, respiração. Ela se apoia em seu corpo para estar ali fruindo da efervescência que é haver vida sobre um tablado.
 Dentro da geladeira um palco. No hiato entre os mundos, onde mora o teatro, também mora a geladeira. Abrindo a geladeira a gente encontra o vazio, o palco vazio. E a gente sente: agora é comigo, eu que escolho pra onde vou. A sede e a criação são farinha do mesmo saco.

DENTRO DA GELADEIRA
Agora estou aqui.
Começo pelas tensões. Não é simples sentir, aceitar as tensões. Teria de se mover com elas ali mesmo. Mas porque mover? Mover o que? Um movimento sem vocabulário. Seria apenas um corpo existindo e nisso não parece haver arte até porque ninguém vê. Que historia eu vou contar, dentro da geladeira, nesse palco vazio que é a geladeira aberta frente a minha mente em branco, com o mundo aí se virando e revirando la fora, aqui dentro, em todos os lugares?
E palavra? Qual seria a palavra.
Uma palavra para o agora, alguma capaz de captar o instante da egrégora, os anseios que não se sabem ainda palavras. Ou o movimento que não se sabe ainda movimento.
Tudo é corpo ainda.
Corpo é tudo em potência.
Beleza.
Beleza é agora a palavra que me cerca, por todos os lados. No momento que penso em dizer beleza talvez já não seja bonito, mas é disso que se trata uma construção cênica. A gente trabalha até ficar bonito. Então eu começaria assim: evocando a beleza. Tudo que é belo.

UMA TRANÇA ENTRE A GOTA, O TEMPO E O MAR
O trampolim estético me manda para o mundo da observação agradecida, que acho que muitos chamam de religião, e eu concordo. Se pudermos trabalhar nos despachos estéticos das fricções do sem sentido e do arrebatamento da consciência do finito, talvez possamos fazer uma trança entre a gota, o tempo e o mar. A gota e o mar, de Sidarta Galtama:
 “O que fazer para uma gora de agua não secar? “Joga-la de novo ao mar”.
Lançar a minha gota de agua que é a minha alma, ao mar, que é a experiência de vida – isso se dá através de uma ato de estética. Como um despache, um mantra, um silencio, um sacrifício, ou qualquer outra obra de arte.
O que a arte me ensina: qualquer ato estético é um despacho, uma mensagem em dimensão espiritual que passamos uns aos outros e às deuses. É a comunicação propriamente dita.
Pois não dá pra viver em estado de orgia da consciência. Meu corpo é uma máquina limitada. Mas mais limitada ainda a é ladainha de todos os dias me quer tomar a beleza que já é minha.  
Não quero que me tomem a beleza, então abro a geladeira. Todos fazem isso. É isso que fazemos quando abrimos a geladeira: achar a beleza. La onde há um palco vazio, tão vazio quanto um alfabeto de letras, números, formas,  movimentos, jogados uns sobre os outros sem harmonia. Sem dramaturgia.  Busco dar sentido ao corpo e ele me parece um fantoche quebrado de uma peça já encenada há muito tempo e que nem eu sabia o roteiro direito. Esse fantoche fica ali, esperando por um sopro de ar que o movimente. Eu levando os braços, mecho o quadril, ando de um lado ao outro. Alfabeto empilhado, e de repente meus pés que, apesar de serem só meus, ganham a sombra de todos os balés já dançados. Todas as obras estão pairando no ar e sussurram contando piadas sobre o próximo ato. Eu não entendo, pois não o vi. Os fantasmas da arte contam piadas internas mas que quero fazer parte do grupo.
O próximo ato. Qual é o próximo ato? Quem sou eu no próximo ato? Quero voltar a ter meus pés, quero alinhavar palavras para que minha alma volte ao mar. Estou dentro da geladeira, nessa potente fenda do espaço-tempo. Espero que mais alguém abra essa porta:  eu vou agarrá-lo pela roupa e faze-lo entrar. Sentar-se na plateia que é aquele lugarzinho na porta onde geralmente colocamos os ovos. Hoje colocarei ali bundas. Todas que abrirem essa porta.  Eu vou perguntar “isso te faz sentido?” Se eu levantar assim o braço, e depois pular e virar de costas: faz sentido?  E se eu começar com “há algo de podre no reino da Dinamarca?” Você vai querer ouvir essa história?

Telegrama chinês

Hoje mesmo
vivi um verão inteiro
Talvez amanhã acorde em 2016
Quem sabe
Enquanto calculo meu ciclo
mancho os lençois
a lua se esconde
Meus gatos agora devem estar dormindo na janela
sob o sol carioca das duas da tarde
Lembro quando o canino esquerdo do mais velho caiu
Ele ainda nem morreu e eu já tenho tantas saudades
Aqui, 1:11 da manhã
Peço nescau gelado no serviço de quarto
Amanhã trabalho cedo, no palco, que é meu lugar favorito (depois das florestas e dos buracos dentro das cachoeiras)
De manhã cruzo com crianças chinesas de mochilas e franjas
Aqui os bebês também choram
Todo o resto é diferente
Invento o conteúdo dos letreiros
Me divirto só
caindo de bicicleta em curvas acentuadas demais
em estradas encantadas, só minhas, por 10 km
Comi ostras
coisas de dentro de conchas
algas e transparências estranhas
Fecho os olhos e não me lembro onde mesmo estou
Havia sonhado com paisagens tão antigas
Com toques que já não existem mais
Depois meditei sobre Saturno e pedi para que ele fosse sempre gentil comigo
Sei que não é de sua natureza
Mas não custa tentar

abusivo


aos machos ascencionados da minha life
(que me roubaram a palavra desapego e amor incondicional e as fizeram parecer discurso hipócrita)

Gengibre é bom pra garganta
Limão pro sangue...
Alecrim pro coração
E pro caráter é bom o que?
Deixa eu te recomendar
Sou expert em afeto
Em campo emocional semântico sou PHD
Apesar da minha função, pra você
(nossa, como demorou pra eu entender)
Sempre foi ficar na estante
vendo o teu jogo acontecer
E só sair de lá quando você quisesse fuder
Ou bancar por aí um novo romance
( pra quem? pra quê?)
Tempo dá novidade
E o fogo faz transmutar
Eu queimo, e não é (só) ansiedade
Se você entrou na minha fogueira foi porque quis entrar
Os mais fracos são os mais perigosos:
eles falam que não tem força, você dá.........
Aí já viu
Fudeu
Sumiu –
Quem fez já não está
É a transitoriedade da vida (som de pássaro)
o coração leve do desapego (mantra Om)
Que funciona mais ou menos assim:
“tu fica aqui, enquanto ta bom pra MIM
E eu falo o que tu quer ouvir porque sei muito bem te iludir
Eu não tenho nada a perder então é super easy me divertir
Mas quando eu cansar e vou vazar
E não mete essa de me responsabilizar
Amizade? É só com quem eu nunca comi.”
Aprendido?
Aprendi
Se você mentiu ou deixou de mentir
Se você sumiu ou nunca esteve ali
Se você amou ou só se lambuzou na dádiva do meu sentimento sincero
Já não me pergunto
Não te amo não te mato não te quero
e nunca mais te curo
(Eu, enfermeira pessoal do teu ego)
Eu rimo tudo enquanto escalo
e refaço o curativo desse rasgo-ventre-punhal desleal
que você me deu
num estalo
(E eu remendei muito mal)
Então, faz favor:
pega o seu xamã interior
E enfia
No Buraco
Do seu pinto sujo
E a CNV que se exploda (seu Compêndio -de-Não-Verdades)
Reprograma sua neurolinguística pra ver se com o coração dos outros pára de fuder
Ególatra do Instanamastê
Compra tua ascensão espiritual aí no pacote
um tapetinho, um mantra e um calote
Afetivo
Em nome da sacralidade do seu ser
Buda na bolsa de valores, manipulando os dados
E eu investindo em empresa fantasma
Você é moeda sem lastro
Sinceramente, irmão
Se tô sangrando agora (e não é metáfora não)
É porque tu me puxou o tapete
Me enrolou mais que baseado
Me fez engolir mais que boquete
E me roubou uns 9 meses de gestação
(De mim, e só, graças a Deusa eu acho)
Abortei tua mentira rranca viscera de gado
Sangramento menstrual fora do ciclo
Não precisa de doutor pra dizer, eu te digo
Chama mau-caratismo, uso e estrago
De hoje em diante só vou pintar vagina verde
Vagina abacate
Vagina cura e sangue escarlate
E ser como sempre fui: fina haste
Entregue e inteira
Acho que eu já aprendi o que eu tinha que aprender com você(s)
Deus queira

10 de janeiro de 2018

MORTE



Ontem eu era maior que hoje. Eu era mais forte, tinha mais dentes. Hoje tenho apenas um dente. Tenho unhas frágeis, cabelos escassos, uma perna pela metade, uma mão com três dedos, um coração que bate vez ou outra, e muito forte. Hoje quase não tenho ar. Acho que morrer é assim como sou eu hoje. Hoje eu morro e não tenho saudade do que deixo para trás. Hoje eu permaneço, fico, apodreço, em qualquer esquina, no pé de qualquer árvore urbana, totalmente indiferente ao rosto dos meus conhecidos, amigos, queridos. Familiares, seqüestradores, saqueadores, críticos de arte, curadores, empregadores, terapeutas, xamãs, donas de casa, domésticas, jornaleiros, porteiros e caixas de supermercado.
 É quarta-feira. A praia ainda está lá, sem o menor desejo de mim. A lua vai sair, é verão de novo e não existe amanha. O verão sempre traz a morte em mim.
Dois dias atrás eu queria ter filhos, marido, emprego, um carro. Plantar um abacateiro. Facilitar processos grupais. Amar. Ser amada.
Hoje eu lido apenas com a morte.
 Fogueira nenhuma. A imagem de uma fênix na parede me lembra uma lenda antiga que não é contada há muito tempo. Serão muitas horas, muitos dias meses anos de escuridão e amargo. Deve ser assim a morte. Escura e amarga, com olhos abertos fitando o lado de dentro da porta de um armário. Sem agenda. Sem sinal. Sem emprego. Sem função.
A cidade da morte pulula o interior do meu corpo. Tantos fantasmas que ficam aqui dentro só olhando: a sala vazia e tediosa que sou eu. A rede globo e suas vinhetas acusando a imensa, infinita repetição dos dias. Eu escuto o sinal dos intervalos na televisão dos bares, de tarde, quase vazios.

30 de outubro de 2016

inicio de pensamento sobre vestigio

O altar dos bebês abacates está enfeitado com flores secas. Dois potes de canela se vêem pela primeira vez e se apaixonam. Isso tudo acontece ao lado esquerdo da minha vista, enquanto eu cozinho ao fogão. Um estranho habito, como eu me percebo aqui.
O espaço é vibração de estar: freqüência cardíaca e cerebral.
O tempo não se toca.  Me sinto agora, quase impossível dizer, impossível dizer como. Por um segundo olho pra mim mesma nos olhos. Vertiginoso, eu olho pro que eu sou.  Será que a situação resvala ainda pro mesmo lado? Os lugares, antigos lugares de vida,  desses que quando a gente olha bem sempre está lá, em algum lugar. Essa pedra de repetição de si, o que sobra, quero livrar-me. 
Aproxima-te de mim , é como caminhar descalça na escuridão. Abrir o terceiro olho, filha. Tateia esta estrada na qual segue. Os tons diferentes de preto que se vê no interior das pálpebras. Os cheiros. Escuta com a nuca, fala com a barriga, abre o peito, se reintegra, abrindo espaço, pedindo licença pros habitantes etéreos do mundo. Seguirá na força do caminho que vem de dentro do teu peito, que jorra fazendo estrada à frente, a estrada que se faz no caminhar. Nada melhor do que a boa e velha presença.



7 de março de 2016

Daqui: boca vermelha de coração





Minha boceta de grinalda
boceta noiva
espinha dorsal de mucosa
respira no peito
planta boceta carnívora
catástrofe de engolimento
estopim
boceta de marfim
minha boceta noivinha sozinha
e o resto da mulher loba amordaçada
por mim




18 de fevereiro de 2016

12 VERÕES ATRÁS

Por enquanto está bem assim – disse, constatando latitude, longitude e presença do próprio corpo. Aqui está bem, não esta frio nem quente, nem barulhente nem morbidamente silencioso, nem melancolico nem euforico, nem fome nem enjoo. Olhou para o céu de azul infinito. Lembrou albatroz sobre o mar que estava ali em algum lugar (graças a deus). Pensou verão de uns 12 anos atrás, do cheiro da casa do amigo, Raoni, que sempre a deixava triste, da piscina do amigo que sempre a deixava triste, e da incapacidade do peito do amigo que, apesar de bem grande, não podia acolher toda aquela tristeza. A casa sobre a colina, alto lebron, os móveis e quadros de revista, todos os comodos vazios exceto pelo dele, onde ela estava. Agora está bem melhor que 12 verões atrás. A jovialidade sempre trouxe uma proximidade bem perigosa com a morte. Agora, menos jovem. Agora, menos morte. Agora, menos triste. Nessas horas a gente vê, como diria já a grande Inês: o sangue de jesus tem poder, está amarrado em nome de jesus, graças a deus deus existe. Amém.
Como foi que sobrevivi ao chão? Como foi que sobrevivi ao meio fio? Às baratas de botafogo? Ao conhaque em garrafaa plastica? Aos beatniks tagarelantes nas mesas de cabeceira, dentro das mochilas, debaixo dos braços nas praias a noite, nos onibus de viagem, nos escoderijos da cidade? Lembrou a amiga, sempre ela, que apesar de por vezes raivosa, indigesta, estivera ali sempre, segurando sua testa para tantos vomitos convulsos. O sangue da amiga tem poder. Como naquele dia que ambas bâbadas se esconderam em um caminhão com placa de são paulo. Iriam para são paulo naquela noite, foram para são paulo por alguns segundos. Pensaram são paulo. Pensaram sempre que não dava mais para ficar. Durante tantos anos, a cada instante: não dava mais. Seria o ultimo. O atropelamento à espreita, o remedio à espreita, os cortes no banheiro, o impeto do fim. Estavamos mal, como estavamos. Estavamos já no limite. Sobrevivi ao limite. Sobrevivi ao que já não dava mais. Àquela doença não sei, de alma. À tristeza da casa do amigo, à fuga cotidiana, ao sol inimigo que sismava em acabar com todas as noites sem fim.
Éramos uma legião nessa dor da juventude. Alguns mais assentados, outros mais sangrentos, uns mais misterisos, outros mais arranhados. Foi uns nos outros, caindo uns sobre os outros e sustentando uns aos outros, que pudermos sobreviver ao chão. Éramos órfãos, devo dizer. Onde estavam nossos pais?- é o que eu sempre penso quando penso em 12 verões atrás.