11 de setembro de 2007

Fecha os olhos e escuta

Rôo unhas. Arranco pelos. Cabelos queimados. Um pequeno orgasmo e pronto. Você está morto. A arvores caiu. O poste caiu. O gato caiu. O céu caiu. E choveu. Choveu. Choveu fortemente até o chão se desmanchar em qualquer coisa terrosa e secreta.

Dentro dos seus olhos, lindos lagos negros e frios, nada um grande monstro poderoso, com escamas e garras e um grande coração. Oculto na escuridão, ele sabe de tudo, ele vê tudo, e ele espera.

Na água o fogo apaga deixando muita, muita fumaça. Com a superfície do lago, se fundiram muitas e muitas lagrimas. Nós somos duas chamas unidas. Ele brinca com fogo. Ela brinca com fogo. Eu posso ouvir o som do seu monstro a mordiscar gravetos lamacentos. Em uma comunicação silenciosa, ele e o dragão branco que há tempos se apossou da minha alma trocam juras e confidencias.

O que somos nós perto deles? Apenas crianças que brincam com fogo...

As vezes eu penso que tudo vai cair, e que só eles, as criaturas do submundo das almas e sombras, irão voar livremente pelo mundo e soprarão as cinzas de uma realidade desfeita.

Alguma parte de mim sabe que algo grande está por vir. Um bebê, cujo choro anuncia algo como o apocalipse. Você também o sabe. E já não temos medo do escuro. Estamos nus, de braços abertos e peito estufado diante o grande precipício mudo, por toda a eternidade.

3 de setembro de 2007

Wake me up

Uma capa de pedra fosca cobre meu coração. Eu sou uma grande mentira sem graça que o mundo resolveu contar porque não tinha mais nada pra fazer. Eu sou uma fraude. Não olhe pra mim. os espertos sabem do que eles não gostam. E por isso eles ficam longe. Porque assim eles podem não cair em armadilhas. Eu não sou esperta. Nem você. – pensou Alice consigo mesma.

Se eu me curvar para frente e tocar os meus pés, ficarei em formato de circulo e assim a energia que habita o meu corpo se moverá como uma roda de material reciclável e eu tenho certeza que em poucos minutos eu ficaria verde e apodrecida. Por isso não há motivos para tocar meus pés. Eu não enganaria mais ninguém sobre a minha idade e as minhas intenções.

Existe algo dentro de mim que é muito sujo, mas ainda não descobri o que é. Talvez seja você. Talvez seja minha própria vida, ou a sua. Talvez eu tenha câncer.- pensou Alice consigo mesma, olhando nos olhos de seu leitor.

A lua hoje é um carvão em brasa pela metade: meio vermelha meio inexistente. Tenho medo de ficar assim... meio vermelha, meio inexistente. Qual parte de mim ainda existe?- perguntou-se Alice.- ah! Já sei! A que queima! Essa daqui! – e tocou a barriga na altura do estômago.

A questão não é crescer ou diminuir, Lewis. A questão é tocar as coisas ou não tocar. A alma das coisas. A minha grande angustia deveria ser não ter mãos para pegar qualquer coisa. Ou ter mãos demais e não saber o que pegar... digo melhor: a minha grande angustia deveria ser não ter tato em certos momentos, e em outros tê-lo de forma tão aguçada que qualquer toque faria meu coração parar e vomitar.- confessou Alice em altos brados durante uma discussão calorosa com seu criador.

Alice anda por uma longa estrada fina e perfeitamente reta de tijolos amarelos. Horizonte de um lado e de outro. De repente, surge o gato inglês.

Gato inglês – pra onde está indo?

Alice – eu sigo o caminho.

Gato inglês - que caminho?

Alice – ora... Esse, bem aqui. (e bate os pés para indicar o caminho)

Gato inglês – não há caminho algum.

Alice – não é possível que não veja.

Gato inglês – essa estrada?! Sim, eu vejo essa estrada...

Alice – então...

Gato inglês – ela é cumprida demais para se chegar ao final.

Alice – mais ainda assim é um caminho!

Gato inglês – não, não é. Um caminho pelo qual não se pode atingir o seu destino não é um caminho, é um passatempo.

Alice - ...

Gato inglês – pode-se dizer que você anda, mas não minta dizendo que vai a algum lugar.

Alice – então... que caminho devo eu tomar?

Gato inglês – ora, depende de onde quer chegar.

Alice, chorosa – mas eu não sei onde quero chegar!

Gato inglês –então não tome caminho algum.

Alice –nenhum caminho?

Gato inglês – nenhum caminho.

Alice – e o que faço eu então?

Gato inglês – sente-se para não se cansar.

Alice – eu quero ir pra minha casa. Que direção devo tomar?

Gato inglês – em frente.

Alice – mas estava indo em frente quando me disse que esse não era um caminho!

Gato inglês – continua não sendo um caminho...

Alice – não entendo. Os tijolos amarelos seguem em frente, e só. Se minha casa fica nessa direção, não há como esse não ser um caminho.

Gato inglês – não é um caminho.

Alice – mas leva a minha casa.

Gato inglês – leva.

Alice – você é louco.

Gatos ingleses – sim, sou. E você é mentirosa.

Alice – quando eu menti?

Gato inglês – quando me disse que ia a algum lugar.

Alice – eu não disse não. Disse apenas que seguia o caminho.

Gato inglês – como vê...

Alice – ora, isso não é uma mentira!

Gato inglês – pois como não, se não há caminho algum?

(Alice pensa. Coça a cabeça. Olha pra baixo)

Alice – bem... e que caminho você vai tomar?

Gato inglês – eu não tomo caminhos.

Alice – certo... então, que caminho as pessoas desse lugar tomam quando querem ir a algum outro lugar?

Gatos ingleses – todos aqui já desistiram de tomar caminhos.

Alice – isso não é possível! Então o que eles fazem?

Gato inglês – (cantarola)

Alice – você não me ouviu?! O que eles fazer?

Gato inglês – essa foi a pergunta mais estúpida que eu já ouvi.

( Alice chora)

Alice – oh, céus! Eu vou ficar aqui pra sempre!

Gato inglês – e haveria de ser diferente? Estão todos aqui pra sempre.

Alice – e como chegaram aqui?

Gato inglês – essa foi a segunda pergunta mais estúpida que eu já ouvi.

Alice – como chegaram?

Gato inglês – não chegaram.

22 de agosto de 2007

HEROES

Hey, quebre seus ossos e feche seus olhos. Nesse ar gelado está tudo aqui. Muitas penas flutuam nesse rio raso. Muitas penas brancas e azuis. Sinto tanta saudade. Tanta saudade do rio raso. Eu quero ir o rio raso esta tarde. Eu quero fechar os olhos. Quebrar os ossos. O céu espera por mim. Minhas asas de mariposa jovem se atiçam. Algo mais vai acontecer? Esse é o fim! É tudo! E ahhhh. Como é lindo. Uma colcha de algodão me cobre enquanto meu corpo pesa sobre o gelo fino. Um gelo fino que fez o rio raso parar de correr. Ele parou de correr a minha espera. Eu já voltarei. Ainda falta um pouco, muito pouco. Mas eu ainda posso sentir o seu cheiro! Durma. E não se importe para onde estamos indo. Durma. Sobre o rio raso nada mais vai acontecer! Está tudo aqui! E o céu me espera, ele me ama, ele me olha assim, tão doce, tão branco, tão calmo. Depois de dez anos que forçamos para esquecer os espinhos dos nossos corações... depois de dez anos em uma estrada suspensa na esperança da morte... e de repente a vida parece tão farta. E de repente nada mais é importante. E de repente, está tudo aqui. Como se deus falasse comigo. como se todos já estivessem aqui há tanto tempo! Eu posso notar nos seus olhos a melancolia dos anos que passaram na sua caverna de dragões ferozes. Eu posso ver tudo isso. Eu posso ver as tochas a incendiarem o teu corpo todo, eu posso sentir a sua pele queimada a pesar sobre as minhas costas e os seus pés fracos caminhando nas linhas da minha mão. E acabou. Eu nunca mais vou esquecer. Eu tentei tão forte que tudo acabasse em não mais de dois dias! Mas agora eu tenho a eternidade. A eternidade voltou para mim. a eternidade me abraçou. E nos braços dela, esquecemos que tivemos mãe e pai, pois foi aqui que nascemos. Somos filhos do deus e do diabo e é com eles que temos de tratar frente a frente. E você sabe onde os dois moram?! Eles moram debaixo das águas claras do rio raso! E isso, essa coisa gelada que nos envolve, ela na verdade é o suspiro deles. É o suspiro do final de uma xícara de chá e uma conversa sobre nuvens e espíritos! Vamos ao rio raso nesta tarde, pois tudo lá nos espera. E olharemos bem fundo naquelas águas quase congeladas e veremos então os nossos reflexos de anjos eternos. Veremos nós, nos nossos olhos estarão eles, em um abraço de quinhentos mil anos de satisfação e entrega.

A vida desliza amanteigadamente pela sua testa agora. Ela escorre pelos seus olhos. Ela chega a sua boca. Ela tem gosto de nata. Muitos diriam sangue. Mas agora não. Agora ela tem gosto de nata.

Hey. Feche os olhos e quebre os ossos! Nada mais vai acontecer!

10 de agosto de 2007

Thank´s Jack

“A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de náuseas singelas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente foi experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte.”

“As coisas não podem continuar assim indefinidamente – todo esse frenesi, essa agitação toda. Temos que chegar a algum lugar, encontrar alguma coisa.”

“Ah, agora essa homem! Há anos que desconfio dessa tua vontade de ter um lar e um casamento, todos esses maravilhosos anseios da tua alma.”

“ O balão não sustentará você por muito tempo. E não é só isso, o balão é abstrato. Vocês irão voando para a Costa Oeste e voltarão cambaleantes, em busca do próprio juízo.”

“ A DEMÊNCIA DE DEAN DESABROCHARA COMO UMA FLOR EXÓTICA...”



" Assim, na América, quando o sol se põe e eu sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de New Jersey, e posso sentir toda aquela terra rude se derramando numa única , inacreditável e elevada vastidão até a Costa Oeste, e toda aquela estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando nessa imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crinças chorar, e essa noite as estrelas vão aparecer e você não sabe que Deus é a Ursa- Maior? E a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando a sua pálida cintilancia sobre a pradaria antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia e ningém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice, eu penso em Dean Moriarty; penso até no velho Dean Motiarty, o pai que jamais encontramos; eu penso em Dean Motiarty."

29 de julho de 2007

Por isso

Uma coisa apenas para acabar com uma vida. Uma, apenas. Pois uma vida custa pouco, tão pouco. O fio que separa a minha alma do imenso conforto das arvores tremulas e do vento é o meu inferno. Estou nua, sangrando entre as pernas, sobre este fio. Uma corda sobre o precipício. O inferno.

Estou só sobre a corda, no meu sangue a gotejar no fundo infinito do precipício. Sem ecos. Precipício sem ecos. Sem plantas. Sem nada. Precipício.

Minha alma, um precipício sem ecos. Minhas palavras, sem ecos. Meu coração, sem ecos, minha pele fria.

Sonhei que estava morta. Pele fria. Ninguém queria se aproximar de mim. Eu. Morta. Roxa. Sem ecos.

Eles riem. Eles riem de quê? Por que todos riem assim?

Uma cabeça amputada em minha mão direita. Eles riem dela. Eles riem e eles gozam de um prazer sujo. E a cabeça, roxa, santa, limpa, a cabeça chora. Eu choro, um choro sem ecos.

O mais absoluto escuro. A mais absoluta dor. Eu não tenho mais amores.

22 de julho de 2007

O PARQUE DAS LUZES PERDIDAS

O sol do fim da tarde de um outono feliz me deixou saudades. A brisa suave. O sorriso de Ana. O sorriso de Ana é como uma estrela morta; ele vai brilhar um bilhão de anos após ter morrido. Ana é como uma estrela morta. Uma estrela morta não é como o sol, que tememos que morra e com ele mate a todos. Uma estrela morta já está morta, sempre estará e nada vai mudar isso. Será que podemos esperar que uma estrela morta renasça?! Ou seria melhor procurar por uma estrela viva? E o que diferencia uma estrela morta de uma estrela viva? A luz que delas me chega brilha igualmente dentro do meu quarto escuro. Talvez brilhe mais a luz da estrela morta. Pois a estrela morta é como Ana e nada mais é como Ana.

Sonhei que havia encontrado um elixir que permitia ressuscitar cadáveres. Com ele eu ressuscitava as tardes do outono feliz, e o sorriso de Ana, e muitas estrelas mortas. Fazia uma festa de cadáveres amáveis.

Será o céu mais do que um grande cemitério? Seria por isso que minha vida inteira estive em luto? Em luto pelas estrelas mortas, que ninguém sente falta?! Em luto por Ana, morta entre as estrelas?! Pelo sorriso de Ana? Onde será que repousa morto um sorriso que já se extinguiu? Onde será que descansam todas as chamas apagadas? Será que existe um quarto, no canto do universo, cuja a chave permanece escondida? Um quarto que guarda para a eternidade todos as coisas mortas? Será que o tempo esqueceu de alguns lugares? Será que eu poderia achar o meu ano passado dentro de alguma caixa embaixo da cama?

Ah! Eu poderia sonhar com o cemitério de todas essas belezas mortas! Que lindo sonho seria!

Não. Não era sobre isso que eu queria escrever. eu queria escrever sobre um amor. Sobre a eterna paz de um amor. Sobre os segundos de amor. Não sobre o falecimento de um. Eu queria falar sobre o pano macio do amor, um algodão velho e fino. Sobre as noites dormidas de um amor. Mas acabei falando sobre os últimos segundos trêmulos de uma boca ardente, novamente. Eu queria falar sobre a manha acordada com o amor, sobre uma cama, um ninho, o leito do amor vivo. Sobre os sorrisos que o amor me deu.

Mas agora eu tenho uma caixa selada no lugar do coração. E eu sou também uma estrela morta. Resta-me saber onde estou. Resta-me brilhar sem medo da morte. Pois Ana... Ana está morta como eu.

13 de julho de 2007

SORRIA!! =)

Eu queria uma boa imagem pra descrever a beirada do mundo, mas eu não a tenho. Digo, eu tenho muitas imagens, mas nenhuma para a beirada do mundo. Eu diria que lá o vento sopra forte e a areia de algum deserto entra nos olhos e na boca, deixando tudo seco e ferido. Mas não é assim, eu não posso mentir. Gostaria muito que fosse, mas não é. Eu diria também que lá não há nada; que há cegueira, breu, frio e apatia: a ausência. Mas também não estaria certo.

Quem será que já foi a beirada do mundo? Gostaria de olhar em tais olhos... são esses olhos também uma beirada deles mesmos. Como os meus? Como os meus, talvez, que são uma beirada do nada. Existe também a pergunta: se não há nada, como pode haver beira?! Certas coisas entendemos apenas com os olhos bem fechados.

Era um pesadelo, e você acordou de sobressalto no meio da noite. Nele, você andava com os pés descalços sobre um monte de folhas secas. E o que há de assustador?! O medo não se via, no entanto você sabia que por debaixo daquelas folhas uma dor espreitava sedenta pela carne fria de seus pés e isso o fazia não conseguir respirar. Era um longo caminho...

Então você acordou e tudo parecia limpo e sólido, perfeitamente real e quadrado. Mas o que havia por trás daquele ar?! Um grande suspiro. Um suspiro que duraria uma eternidade de tão intenso que era. Como uma mensagem enviada pelos ventos através dos tempos e das terras, algo forte, como o tambor dos índios, algo que, sei lá, que irremediavelmente estaria lá.

O pulmão ainda assim não conseguia respirar e o coração pesava como o de um jovem homem condenado à morte.

E então você acordou de sobressalto, todo estirado em cima daquela cama dura. Fazia calor e o ventilador de teto, com seu funcionamento miserável, só espalhava o cheiro de suor que se desprendia da coberta áspera. Um quarto de hotel. Era dia. Você só queria sentir algum amor pelo sol. Ele brilhava, rei lindo e quente naquele lugar de corações frios. Você o amava em algum lugar da sua alma, mas isso não mudava nada. Não era o suficiente. Nunca havia sido. Meu deus, de onde pode vir tanta devassidão?!

Você caminha até a janela se sentindo o maior dos hereges, o maior dos traidores de seus próprios amores. Há um desespero contido que você tenta ignorar mas que, revoltado, queima as suas costas de cima a baixo. Tudo é fogo, não é mesmo?! As lagrimas secaram há tanto tempo. Você não estava mais ligando há tanto tempo.

E lembra dos pesadelos da noite infernal no hotel desconhecido que você queria tanto chamar de casa. E do sexo com as pessoas perfeitas que você queria tanto chamar de amadas. E da vida que você queria tanto chamar de sua. E dos seus olhos... dos seus lindos olhos que você queria tanto chamar de ricos.

Você escreve um poema, com todo a coragem e devoção. Um poema que você queria tanto chamar de feliz.

No decorrer do dia eu posso te assegurar de que você vai constatar pela qüinquagésima vez na sua vida que os momentos não passam de sobressaltos no meio da madrugada e que tudo é um eterno acordar, ou dormir. Tudo é “a copia da copia da copia”. Você só escuta os sussurros e só vê as sombras do mundo que alguns cismam em chamar de real. Você está preso na caverna de Platão, na mente dele. Você queria que Platão estivesse vivo só pra poder esfaqueá-lo inúmeras vezes até ele falar enfim como se sai da caverna.

Maldito.

Platão', que nome estúpido.