8 de junho de 2011

Eu estou sendo suspendido pelo pescoço. A cada quinze segundos, eu tenho um medo terrível de cair. A cada quinze segundos eu tenho que voltar para o lugar onde eu falto. Se tudo flui muito.. eu tenho medo.

30 de maio de 2011

Você vai ter que gostar de mim do jeito que eu sou. Vai ter que gostar.

9 de abril de 2011

Give me death


Para andar nas ruas que eu não conheço, e transar com pessoas que eu não conheço, e me ver de uma forma que eu não conheço, para esquecer os percalços de se saber quem se é, inclusive a idiotice que é isso.

Para beber coisas fortes, para lembrar de Allen Ginsberg, para estar em São Paulo porque lá a selvageria não leva ao mar.

Pra esquecer que amor romântico existe, pra não quer isso, para odiar isso, para nunca nunca lembrar disso

Pra fazer raio x do corpo e ele aparecer sem coração

Para o corpo andar sem coração, para viver sem coração, para ele não conhecer a diferença entre a vida e a morte.

2 de abril de 2011

Encontro a ventania dos olhos. HOJE ACORDEI COM MEDO. Encontro o deserto das mãos. Por trás do raciocínio há uma buraco negro. Penso. Evito o buraco negro. Sorrio e aceno. Lá se vão as pessoas. Agora estou aqui, muito distante. O mundo é mestre em desbancar orgulhos. As espectativas são buracos cobertos de folhas. O andarilho está ciente de nunca mais poder andar: ele segue relembrando a eterna presença do nunca mais. Aliás, podemos morrer, enfim.

27 de março de 2011

antigamente eu achava que a fome no mundo era, em grande parte, causada pela enorme quantidade de oferendas de comida que são feitas nas encruzilhadas para deuses pagãos. eu pensava - alimente homens e nao deuses, como slogan pessoal.
alimente homens e nao deuses continua sendo uma boa ética, mas nao por esse motivo.

quais deuses alimentamos?

26 de março de 2011


Barbatana de baleia

Não posso precisar o que é. É um movimento que faz meu estomago frio. Que tira a fome, como se eu estivesse doente. E um medo. Um medo do tamanho do mundo, apertado todo dentro do meu corpo; eu exalo isso, eu cuspo isso, eu estou contaminada, e você vê.
Medo de sentir falta, medo de sentir presença pois depois virá a falta. Medo do quão oscilante é essa superfície de apoio: palavras, gestos e olhares. Como pode? É suicídio! E tem gente que faz isso! Que vive assim! Como pode? É suicídio! Eu mesma vivia assim!
Eu não sei dizer se é bom. Não é questinável, não é essa a questão.  É dor de crescimento, de prazer. Dor de prazer de encontrar olhos. Dor de medo do prazer. Vicioso.
Todo apaixonamento deve começar assim. Doendo. E terminar também.

25 de março de 2011

pra lá

Tem um morro na frente da minha casa, depois de todas as casas que tem na frente dela. Atrás das casas, em algum lugar que eu não saberia dizer, até hoje, o quão distante está, estava o grande morro. Quase todo careca, uma pedra marrom escuro acizentada, chorona, e chegando ao topo, as fendas preenchidas com muito verde.


E me lembro de um dia ter olhado bem o morro, da janela da sala. Estava chovendo fino, e eu fiquei imaginando – com uma imaginação que me permitia sentir cheiros, toques e destinos dos lugares e das cosias – me imaginando lá em cima, sozinha.

Da janela da sala,o morro também me mirava, eu acho, e também me queria, tanto quando eu a ele. Só podia. Era uma força de atração que eu quase podia tocar. Porque o morro, na verdade, era o maior território seguro de dentro da minha cabeça. O resto estava sitiado por coisas mais agressivas, como uma ganância que eu nunca conheci igual pelas figurinhas dos álbuns que eu colecionava, ou as minhas duvidas sobre o pertencimento das roupas e penteados que eu usava na moda infanto-juvenil do meu bairro, ou até se eu tinha realmente amigos. Tudo falava muito alto durante todas as horas e os dias que se passavam, agora embaçados, pela minha infância. Mas o morro não, ele era calado. Ficava ali, como um mundo inteiro, plantado no chão, seguro, pronto para me segurar se eu cambaleasse. E esse silencio era mais como uma vibração pré-sonora do que como um vácuo. E o morro, mais como uma casa do que como uma pedra.

Ali, ele era o sitio que tanto gostava de ir nas férias, era também todos os enormes campos que os anões que existiam na idade media tinham que cruzar para encontrar um tesouro ou uma erva medicinal. Era o jardim secreto, para a menina que vinha órfã da índia, com canções de bolso que a serviam de consolo. Ele era a materialização de um dia chuvoso e tranquilo, quando eu podia deixar meu olhar se perder no entre das coisas, onde a chuva caia. Meu mais perfeito bem estar. Ninguém está lá. Ninguém nunca vai estar lá. Ninguém nunca esteve lá. O meu lugar inaugural no mundo. Minha poesia em formato de pedra.

Hoje, depois de muito tempo, eu olhei novamente na cara do morro. Ele me olhou de volta. Continuo não sabendo o que se passa em sua superfície. Continua a ser meu mistério pessoal. Lembrei do dia em que eu armei minha fuga para ele; quando eu coloquei uma banana, uma corda e uma muda de roupa na mochila, abri a porta de casa, determinada, e me seguraram pelo pescoço perguntando aonde eu ia. Obvio que não respondi, como eu ia responder: estou fugindo para o morro. Essa casa fala alto demais. Eu disse que estava indo brincar na praça, e voltei desconsolada pro meu quarto. E do quarto fiquei olhando o morro, da janela.

Hoje eu quis fugir outra vez. Quis colocar uma banana, uma corda e uma muda de roupas na mochila e seguir em frente até o topo, sentar, ficar em silencio. Deixar a chuva cair, lavar, e esquecer para sempre que existe mundo, que existe palavra, que existe perigo. Entre os prédios, agora ainda maiores, eu vejo seus recortes me emitindo sua tranquilidade. Meu campo verde da ideia média me manda um abraço entre os recortes de cimento. De dá um carinho silencioso entre toda essa zona que a gente faz.

Talvez essa noite eu fuja pra lá.