19 de agosto de 2015

And than

Energia oscilante
o pulmão cheio de fumaça
o sangue cheio de cachaça
isso aqui amigo, é tudo carcaça
e já tá apodrecendo

sente o cheiro, espanta a mosca
e a gente borrifando água de lavanda
passando o tempo, fingindo esquecimento
será que dá mais?
Dá pra ficar no aposento condenado?
 E o coração, coitado, calado?
Sabendo de tudo, obrigado a ficar mudo
porque o medo obriga
o medo abriga
o medo é surdo

Vamo tocá o tambor pra abrir caminho
um novo ninho com menos conforto morto

vai ter que caminhar
vai ter que respirar
vai ter que sustentar a dúvida

melhor que morrer em dívida
com a possibilidade da lápide
de um novo dia raiar e o amor enfim
sobre nossas cabeças desabar
constante, suave e excitante

3 de agosto de 2015

nome

O automóvel deslizando sobre asfalto liso numa noite fresca fria sob lua cheia, estrelas, enormes arvores. Uma vagina escondida entre duas coxas, no assento do meio do banco de trás.  Sete cabeças, com mais ou menos cabelo, organizadas destribuindo o espaço dentro desta caixa em movimento. Partícula sexual em transito. Fluxos de cores neon sendo respirados e expirados através da vagina, escondida. Fingia nao existir. Era como um filhote de carneiro sob folhas de bananeira. Os lobos fingem que ele que não está ali. E ainda assim, ele é tudo o que há. Cada célula atenta para ela. Farejam no ar sua exata localização. As coxas fechadas como que querendo fazer desaparecer  o orifício. Não é nada como afeto ou devoção que acontece, muito mais baixo que isso, densamente se deseja, não tem nem nome. A vagina é o canal do desejo e não o desejo em si. Não é nada com ela, que só guarda a passagem para um instante de realizações galácticas, que purifiquem o corpo de tamanha boçalidade, tamanha cotidianidade, tamanha animalidade, tamanha falta de sentido.

Os falos são perigosos pois não sabem que buscam, e buscam sempre o que não sabem. E a partir disso, dessa matemática, o que eles tem ao alcance se transforma, por mais complexo que possa ter sido, por mais sutil, transforma-se em matéria sem nome.
Apenas o nome pode salvar uma vagina no mundo dos baixos quereres.   

29 de abril de 2015

Canção, no coração levar
 Dar passo a passo ao amar
E quando não puder mais
 Zarpar
Feito um veleiro fantasia faria  
Pois no calcanhar dói o peso da função-rotina
E o cinza pintado de tinta
Enjoa a vista de quem só quer
O mistério por trás de todas as coisas
Eu não admito que Ele vá
Desaparecendo pelos bueiros dos cartões postais da liberdade
Onde havia fadas não pode haver só vazio escuro
há de se lutar pelo escudo místico que envolve as árvores
e suas ervas daninhas

agradeço aos amigos encantados que, disfarçados de gente do mundo, me encaminham para as fogueiras ancestrais, as anciãs salgueiro, as idéias tartarugas – grandes, lentas, sábias, amistosas, e quase sempre verdes.  



26 de dezembro de 2014

rascunho de caderno 2014



Coisas que eu nem sei contar, de mim pra mim, no ouvido
Problemas de pele é uma questão com a criança interior. Não está conseguindo brincar. Onde ela está? Sumiu para debaixo do escorrega, não voltou mais.
Agora fervo na ausência. Fervo no meio dos peitos dela.
Segurando algo entre os dentes. Segurando algo nas mãos. Não pode perder, não pode largar, não pode esquecer.
Do quê? Ficou a memória do que não podia. A memória da mão – perder. A memória dos dentes- segurar.  Comida invisível. Primavera que já está dentro e fora da minha boca, e para ficar...  E mais? O que eu tenho para abandonar?
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Manifesto do som branco
A cidade se movimenta como um animal com fome.
Montada em Cronos, o tempo do anticristo, ela come!
Longe daqui, eu sei, vibra a luz rosa.
Dentro de mim eu sei, vibra a luz rosa!
 Peço a Deus:  o infinito que me couber.
Que limpe meus ouvidos para que por detrás dos rugidos
eu consiga identificar o som branco da imortalidade amor.
Afasto no sopro o medo do não;
 afasto no sopro o peito fechado.
E o nada obsoleto que é querer dar certo.
Eu estudei para as mil possibilidades,
nasci para o que ainda não está
 para aquilo que nos liberta e um horizonte que nos  oriente.
Para ganhar espaço no corpo,
para expandir - sorriso e luz. Flor de novidade!
Regozijo ao saber do que arde.
Na ponta do dedo: plantar.

30 de maio de 2014

cochia, sobre os mesmos



Começar. Vamos em frente, logo ali a gente não sabe como é. Perigo tem, mas e aí? Já na curva a gente pode adivinhar. Qual a aposta? Você espera encontrar o que? Já aqui, depois da saída, é uma honra! Uma habilidade andar daqui pra lá. As vezes o corpo dentro sela, é importante respirar. Musica ajuda. Por isso é bom ensaiar, a gente lembra: já estávamos tentando, continuamos. Continuamos.
Naquele dia você me disse vá mesmo sem saber. Sempre se sabe. hei de me recuperar, esse frio na barriga é o que mata. Ai ai ai, é o que mata.

21 de abril de 2014

morremos



Morremos. Não mais ansiedade, não mais medo.  Tudo havia saído como esperado, todos nós sabíamos no que aquilo tudo daria. O motivo foi o excesso. Apostamos todas as fichas em um pouco mais de felicidade, sempre um pouco mais de embriaguez, sempre um pouco mais.  Não mais arvore, não mais terra, não mais dia e noite. Morremos. Respiramos fundo demais, nos afogamos em oxigênio. Tudo estava cheio demais de tudo. Não suportamos o tanto. Tanto que não podíamos nem mais dizer o quanto, em uma aspirada boa pela boca e pelo nariz ao mesmo tempo tragamos a terra. A terra dentro de nós não coube. Morremos.  Nada mais de linguagem, nada mais de pausa, nada mais e palavra, nada mais de corte.  Hoje é tudo contínuo. Nada mais. Tempo e espaço misturados, as paralelas se encontraram neste ponto infinito aqui, agora, como suportar a densidade da hora agora do tempo agora do espaço infinito agora do tudo junto? O cadáver. Dentro do cadáver a terra. A terra se refaz, biparte células, cria tudo de novo, ontem e amanhã, no interior do cadáver, entre as costelas do cadáver a árvore. Não mais ansiedade, não mais tempo, não mais pedaço. O corpo humano resiste em sua forma, não explode, sucumbe na tentativa da contenção. Morremos. De tempestade solar, de inundação, de fome, de ressaca. Não mais narrar.

17 de abril de 2014




Lambe lagrima de sal numa bochecha macia
O olho resta aberto contra tudo que não faz mais sentido, como que dormindo e chorando ao mesmo tempo.  Está assim, expelindo sem dar-se conta disso ou do quê.  Aberto, as imagens se esmagam pela Iris, se refazem de cabeça pra baixo na retina, o cérebro transforma tudo em sonho mas eu não tenho acesso. A realidade paira quieta. O olho aberto, lagrima escorrendo, bochecha fria de sal, a língua doce.  Não acontece o que deveria acontecer. O pensamento quieto. a mesma imagem  se esmagando , se refazendo na retina, em algum lugar se faz sonho. Qual?  E os cílios úmidos. E a coisa arrastada, se achata em um sem numero de repetições, um sem hora desse filme mudo e estático. Paisagem do quarto do meio.